Santa Rendeira

Por uma moda menos ordinária

De novo, as modelos 05/05/2009

Filed under: História da Moda,Jornalismo de Moda — santarendeira @ 16:39

 

O assunto me interessa por ser objeto da minha pesquisa da pós. Então vira e mexe aparece aqui. Lembrando que ainda estou estudando moda, e trabalho com isso há muito pouco tempo – embora goste desde sempre. Por isso não quero aqui dar opiniões absolutas, mas sim discutir alguns pensamentos com quem quer que apareça por aqui. Conversar é comigo mesmo. 

 

Então vai:

 

Vi um monte de coisas legais sobre modelos hoje. Vamos à elas todas, linkando-as. Vi uma notícia sobre o início da exposição The Model as Muse: Embodying Fashion no Metropolitan Museum of Art, de NY. Me interessei de cara, pois já tinha visto coisas muito legais sobre outra exposição de moda lá, a The Goddess, sobre a qual falarei mais abaixo. Enfim, segundo o museu, a exposição explora a relação recíproca entre alta costura e a evolução dos ideais de beleza, focando-se nas supermodelos que se tornaram ícones na segunda metade do século 20, e os papéis delas como projetoras e inspiradoras da moda de suas respectivas épocas. 

 

Segundo Harold Koda, curador responsável, “a mostra examina uma linha do tempo da moda de 1947 até 1997, através da estética idealizada da modelo de moda. Nós olhamos para o poder das roupas, da fotografia de moda até o projeto do look de uma década. Com um simples gesto, uma modelo estelar pode resumir a atitude de seu tempo – se tornando não apenas musas de seus designers ou fotógrafos, mas a musa para uma geração.”

 

Ora, isso me leva a pensar que essas supermodelos – legal a exposição falar de modelos de 1947, uma vez que costumamos ver as modelos como celebridades influentes apenas no final da década de 80 – são mais do que “apenas cabides”, como alguns autores até modelos mesmo, costumam dizer. Elas são como as tendências; seus atos, poses, lifestyle criam moods que passam a ser desejados pelos consumidores/público/ povo de seu tempo.

 

Seguindo com a exposição, o Met diz que ela explora como as modelos transmitem mudanças culturais, através de fotografias que documentam momentos de virada na sociedade e no design. Como por exemplo no pós segunda guerra, que, com a volta da moda americana e as indústrias publicitárias, surge o New Look de Dior. Depois, vem o Youthquake na década de sessenta – quando a juventude deixou de se vestir como os ‘adultos’, criando uma identidade para si, e que hoje além de difundida (com cada idade se vestindo no seu quadrado), é fortíssima, puxando para si todo o desejo e reforçando na sociedade atual que o belo é jovem. Aqui, Twiggy magérrima é uma das modelos ícone. Nos anos 80, vêm com tudo e muito claramente as supermodelos, expressando um ideal de glamour, de ser famoso . Aí a gente conhece as fofas, já são da nossa época e se tornaram superstars: Naomi, Linda Evangelista, Christy Turlington – a trindade, que era geral e única ao mesmo tempo.  Anos 90 estão ainda mais frescos: o grunge rebel chic de Kate Moss.

 

 

14met    25met

 

Costume Institute Benefit   Costume Institute Benefit

Primeiro a gente queria ser Twiggy, depois Naomi, depois Kate e agora Gisele. (fotos da exposição e de sua abertura)

 

 

É tudo bem verdade e me parece (não vi e acho que nem vou poder ver a exposição) que exposto de forma consciente. Mas pense, pegue uma pessoa que tenha passado por algumas dessas décadas, que passou sua vida adulta de meados de 50 até agora. Quantas transformações, não? A cada dez anos ela teria de reformar seu estilo, seu modo de pensar, seu modo de se arrumar, de acordo com o novo padrão da época. Seria isso um pouco de falta de personalidade?  Nem sempre, já que trata-se de um ciclo: essas modelos e estéticas também refletem movimentações da sociedade e grande parte das pessoas deve mesmo ter se sentido (ainda que inconscientemente influenciada, ou não) parte de tais movimentos. Mas mesmo assim…Difícil não relacionar com os ciclos comerciais da moda e não imaginar se alguém que é grunge não teria ao menos um ‘espírito’ grunge a vida toda. Será? Acho que não dá para fazer disso uma regra, mas acho que, aquelas (es) que resistiram (resistem) à ditadura da juventude que se iniciou na década de 60  (juntamente com o surgimento das novas linhas de roupas para jovens que, sejamos justos, foi muito positivo!) são mais admiráveis, não?

 

Enfim, achei muito legal eles mostrarem claramente de que forma as grandes modelos reforçam tudo isso e como elas se encaixam na engrenagem.

 

Qual seria então o próximo capítulo dessa história toda, desses anos 2000? A Vivian Whiteman falou um pouco sobre isso esses dias, no ótimo post “Corpitchos Dminados”, em seu Última Moda:

 

“À beira da saturação, o mercado, incluindo sua parcela dedicada aos produtos de moda, precisava começar a mudar a direção. Mas onde encontrar um caminho rentável para essa “virada”? Elementar, meu caro autômato. Na própria crítica do mercado!!!!

 

Quando o mercado impõe um padrão como digamos, a magreza extrema, já traz embutido nesse padrão o contra-padrão. E assim descobrimos, com cara de idiotas, que a crítica, que nós muitas vezes fazemos com intenções dignas e sinceras, já estava prevista pelos “donos da bola”, desde o começo.

 

A coisa surge aos poucos, como se os veículos de mídia, especialmente os 100% subordinados a empresas e grupos de investimentos, começassem a dar ouvidos às críticas que receberam. Santa ingenuidade, Batman.

 

Assim, Anna Wintour, depois de xingar até modelos e atrizes subnutridas de balofas, de repente, resolve ser a stylist da cantora Adele. Todas as reportagens sobre o assunto, é claro, citavam o fato de Adele ser “gordinha”.

 

Meses depois, o golpe de mestre. A revista “Love”, novo lançamento da Condé Nast, a poderosa editora da “Vogue”. Muito bem. Capitaneada pela stylist Katie Grand, a Barbie dos modernosos, a “Love” foi anunciada como o supra-sumo da novidade (afetação pura). A capa foi recebida com aplausos. “Ai, a moda se rende às gordinhas e até às obesas”. “Ai, agora pode!”. “Ai, a moda está ficando mais democrática, ai acabou a ditadura da magreza”. Besteirada braba. No mínimo, equívoco ingênuo de avaliação. 

 

Revistas brasileiras entrevistaram modelos “plus size”, portais da web divulgaram (isso também lembra a discussão sobre pautas repetidas e amarradas em blogs que a Tati falou aqui: http://oavessodoespelho.wordpress.com/2009/05/04/cada-um-faz-o-que-pode/ e o Luigi aqui: http://www.aboutfashion.com.br/2009/04/28/blogs-e-jornalismo/) novas grifes especializadas em roupas do tamanho 46 em diante, uma explosão de notícias. Sapatos, pacotes de viagem e produtos de beleza específicos para obesos, eis o novo filão. Tudo em nome da (falsa) “tolerância”, tudo em nome do “multicultural”.

 

Certo é que nenhuma crítica ou insatisfação que se destaque deixa de ser transformada em produto. É só uma questão de tempo. O tempo do mercado e do consumo via desejo induzido, com todas as suas possíveis e múltiplas variações.”

 

Para Vivian, o que resta a fazer é ir sacando o estrago. Eu acrescento, de forma um pouco redundante, que ter consciência disso tudo já ajuda bastante. Ajuda a gente a perceber o que acontece ao nosso redor, a entender como funciona nossa sociedade e suas relações com a beleza e o consumo. E disso tudo podemos tirar proveito, resistindo, pelo menos um pouco, a padrões inalcançáveis ou tendências momentâneas e evitando o consumo exagerado e impensado – que não nos leva muito longe.

 

Será que na próxima exposição do Met modelos gordinhas representarão nossa década? Eu duvido. Ainda acho que o padrão magro  é muito forte – vende mais, por ser mais inalcançável, além de estar aí, em vigor já há tanto tempo. A ver.

 

 

 

                                                                                                  love-magazine1

 

 

 

 

MAIS SOBRE O MET

 

Vale a pena entrar no site e ver quase tudo que rolou na exposição Goddess de 2003, eles disponibilizam textos e fotos dos manequins. A mostra foi linda, sobre o estilo clássico – expõe como os gregos começaram a vestir-se, a fazer aquelas túnicas e também o quanto esse estilo é forte até hoje – há fotos de vestidos de diversos criadores.   

Aqui: http://www.metmuseum.org/special/Goddess/goddess_main.htm. 

 

Outra coisa legal do museu é que é possível fazer uma visita guiada quando o museu está fechado – assim, vê-se tudo sem ser incomodado pelos outros visitantes. 

 

 

                                                                               26lci43852abl

 

                                                                         Imagens da exposição The Goddess, de 2003, no Met.

 


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