Santa Rendeira

Por uma moda menos ordinária

Série Modelos – 2: Identidade de moda hoje, moda no Brasil 24/03/2009

Filed under: História da Moda,Jornalismo de Moda — santarendeira @ 20:16

Por Letícia Santos

 

Ainda não chegamos nas modelos, mas aos poucos chegaremos lá. Agora, o tema é identidade – como formamos a nossa identidade de moda brasileira? Será que temos uma?

 

 

(…) Segundo a autora de A Edição do Corpo, Nízia Villaça, em artigo para a revista Iara,  “diferentemente da década de 1950, era de maior conformismo, de consumo de massa, as mudanças nas técnicas de produção, a segmentação do mercado oferecem maior possibilidade de escolhas, o que ainda é considerado por alguns autores manipulação de marketing. A manipulação não é óbvia até pela profusão de informações e proliferação de imagens cuja decodificação passa freqüentemente por mediadores como a família, o bairro e o grupo de trabalho. Os vínculos entre aqueles que emitem as mensagens e os que a recebem não são apenas de dominação, mas incluem a colaboração e o trânsito entre produtores e consumidores.”

 

Para trazer isso para um contexto mais real, pensemos no momento atual da moda. No mesmo artigo para a revista acadêmica Iara, Nízia Villaça sugere uma “moda instalação” nesta década, como uma moda que “coloca o espectador definitivamente como co-autor da obra, num processo que, concomitantemente, instaura novas possibilidades de subjetivação em que todos os sentidos são conclamados a interagir em espaços multimidiáticos. Se o resultado nem sempre corresponde, essa parece ser a proposta recorrente dos teóricos. No campo da moda, as tendências mais fortes seguem tal linha, sempre mais espetacular em que o espaço meticulosamente programado não é apenas lugar de uma encenação, mas, efetivamente, terreno de uma inscrição do corpo. Daí a preocupação crescente na escolha das diferentes ambiências.” Eis a “colaboração e o trânsito entre produtores e consumidores.”


Para embasar tal idéia, ela cita ainda Gilberto Dimenstein, que diz em seu livro que a invisibilidade é a principal causa da violência, mais ainda do que a pobreza. Pior é a sensação de não pertencimento.  Ora, tal exclusão parece então ser o motor propulsor de toda uma sociedade atualmente. As imagens inatingíveis, a moda ‘exclusiva’ – inúmeras são as matérias jornalísticas sobre pessoas que fazem “de tudo” para entrar na São Paulo Fashion Week, exclusiva para convidados e imprensa -, o mercado do luxo cada vez mais crescente e próspero…A maior parte das pessoas não faz parte de tais instalações.

 

Em meio a tudo isso, como então pensar numa moda genuinamente brasileira?  Muito difícil. Quantos não são aqueles que apenas reforçam clichês. Quantos não têm medo de não criarem os desejos certos, como o que a globalização nos permitiu ver em tempo real nos desfiles internacionais. Tantos. Demais.  Em 2008, o mineiro Ronaldo Fraga foi o único criador brasileiro escolhido para participar de exposição no Museu de Design de Londres. Ao entrevistá-lo para o jornal O Estado de S.Paulo, ele me disse que já estava em contato com a curadora da exposição há algum tempo, que ela havia conhecido seu trabalho e sua história e o considerado “moda brasileira”.  Nízia Villaça, no entanto, acredita que ele também esteja inserido nesse contexto de moda-instalação que vivemos nesta década. “Ronaldo Fraga que, como Carlos Miele, parece prezar mais a arte, o conceito, do que a roupa propriamente. No SPFW de 2006, Fraga joga com os modelos bolas de isopor e mergulha em seguida na cena final. Sempre cada vez mais tudo é clima, atitude e construção simbólica de marcas para o business global.”


Isso não significa que seja uma postura condenável, e talvez a relação com a identidade de seu trabalho não seja tão direta. Fato é que ele também faz parte do mecanismo da moda atual, embora não goste de admitir. Freqüentemente, irrita-se com jornalistas que fazem perguntas sobre ‘tendências’.  De forma que tudo isso serve para exemplificar como até os mais conceituados da moda brasileira estão confusos sobre sua verdadeira identidade.


O que há de mais certo talvez, é a opinião da estudiosa do tema, Diana Crane, de que “moda no Brasil está se desenvolvendo e se transformando. Estou pesquisando mais sobre o assunto e tentando aprender mais sobre o país.  As muitas diferenças raciais e culturais que existem no país possibilitam o surgimento de um rico material, idéias e imagens para os estilistas do mundo todo.”  Mas será que alguém já está trabalhando isso verdadeiramente? Quem?

 

Aceito opiniões!

 

 

 

 

 

 

 

Ronaldo Fraga no Design Museum de Londres

Ronaldo Fraga no Design Museum de Londres

Anúncios
 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s