Santa Rendeira

Por uma moda menos ordinária

Série Modelos – 1: Moda, mulher e imagem (aqui no Brasil) 18/03/2009

Filed under: História da Moda,Jornalismo de Moda — santarendeira @ 14:58

 

Por Letícia Santos

 

Continuamos alunas da pós-graduação em moda da Santa Marcelina e eu e a Luciana Florence estamos fazendo nossa monografia com o tema acima. Vou explorá-lo aqui no blog também. Segue um primeiro texto da série.

 

Brasil, País de mulheres e modelos bonitas  – mas desde quando? Quem é que teve essa idéia?

 

É de conhecimento geral o alcance da televisão em nosso país. E também se sabe, generalizadamente, que o conteúdo exibido pelas maiores emissoras de televisão brasileiras é freqüentemente raso – raso podendo ser, em certos casos, um eufemismo. Segundo pesquisa de 1999 da empresa CPM Market Research realizada com telespectadoras de São Paulo sobre a programação televisiva, quase 90% das mulheres da cidade considera que a televisão “incentiva crianças a serem mais sensuais”. E a erotização infantil é apenas um exemplo do poder da mídia e sua relação com o corpo feminino.


 Um único exemplo, porém, emblemático, já que este é um país que se considera “produtor” de belos corpos femininos. As conseqüências de tal presunção, tantas vezes tão celebrada, são as mais diversas: desde o turismo sexual e o tráfico de mulheres, à fama das supermodelos brasileiras, à coisificação do gênero feminino na mídia e conseqüentemente na sociedade.


 Essa ‘crença’ parece ter mesmo origem na pós-modernidade. Segundo reportagem de Flávia Lobo e Phydia de Athayde na revista Carta Capital,

 

 “Terminava a década de 70 e com ela entrava em declínio a ditadura militar. Os ares da abertura insuflavam o espírito democrático verde-amarelo e venciam as resistências da censura. Entre os anseios reprimidos que então se expressavam de forma mais direta e desabrida, destacava-se o culto visual ao que se convencionou chamar de ‘preferência nacional’. Forma de adoração pagã que tinha como fiéis milhões de brasileiros e, entre as sacerdotisas mais graduadas, uma morena chamada Gretchen. (…) Hoje, mais de duas décadas depois, muita coisa mudou. Vieram e passaram o movimento das Diretas, a Nova República, a República das Alagoas e os anos tucanos. A festa e o desabafo da ditadura ficaram para trás. Não se percebeu naquele momento que o culto a um ponto de foco do corpo feminino acabaria por gerar um símbolo nacional tão poderoso.”      


Extremamente poderoso e quase insuperável. Assim seria se tal culto não estivesse acompanhado de um desejo, digamos, mais completo. De ser bonita por inteiro, de ser desejável. Certamente, este é um país que acredita que a beleza pode levar longe (maiores salários, status, melhores empregos, etc.). Afinal de contas, não é à toa que 350 mil brasileiros (dados de 2003) se submetem a cirurgias plásticas todos os anos. E não é só: anualmente oscilamos, na contagem da ONU, entre primeiro, segundo e terceiro lugares no ranking dos que mais tomam remédios para emagrecer.   Nas plásticas, só perdemos para os Estados Unidos – mas não se fizermos o cálculo de proporção! Acreditamos mesmo que é muito importante ser atraente. Segundo pesquisa do Instituto Gallup, 61% de nós têm a certeza de ser um físico atraente algo decisivo para prosperar na sociedade. Nos outros países pesquisados – EUA, Canadá, Austrália e França – a média é de 26%. Durante um curso de moda na Inglaterra e na Itália em julho de 2008, com alunos de diversos países, ouvi da garota de Hong Kong: “É verdade que vocês fazem plástica como se fosse uma limpeza de pele qualquer?”,


            O desejo de ser atraente relaciona-se muito de perto com a moda, além de funcionar de maneira semelhante. No primeiro caso, por que o consumo de roupas parece muito simples para quem está disposto a passar – e pagar – por várias cirurgias plásticas. No segundo, por alimentar-se sempre da criação de novos desejos. A cada momento, tem-se um novo ideal, sempre inatingível. Segundo a psicanalista e professora da PUC de São Paulo, Regina Fabrin, tais imagens congeladas da beleza feminina perfeita, reproduzidas pela mídia, nos mantêm reféns de um ideal narcisístico e infantil.


            “Houve época em que o excesso de beleza beirava a tragédia, mas esses tempos parecem demasiadamente longínquos e as mães pós-modernas atentam cuidadosamente para o potencial de suas filhas, cuidando para que permaneçam perfeitas. Algumas não permitem mesmo que elas brinquem como crianças que são, pois a infância às vezes deixa cicatrizes: marcas no corpo são todas indesejáveis se não pertencerem a grifes famosas”, escreveu ela em artigo da revista Carta Capital.


 

gretchen

 


 

 

 

 

 

Gretchen: precursora da obsessão brasileira com a beleza?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Continua no próximo post, com reflexões sobre o corpo e o que fizemos com ele.

 


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